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O que acontece quando um homem cai do céu

  O livro contém 12 contos, são 12 histórias com tanta riqueza de elementos e detalhes que te levam a mergulhar fundo em cada personagem acreditando piamente que está lendo um único romance e não contos em poucas páginas descritas, Lesley Arimah me fez várias vezes ter a sensação de que estava lendo a própria Conceição Evaristo pela natureza dos seus contos. São contos completamente diferentes um do outro, cada qual com seus personagens complexos fugindo da falsa dicotomia do personagem bonzinho ou vilão, são pesagens reais que podem muito bem ser eu ou você envolto nos nossos dilemas, problemas, desamores, saudades e tudo o que nos permeia. Os contos acontecem em África e em algumas situações Lesley também aborda sobre a imigração, algo que muito acontece e também é abordado por outras escritoras africanas como Chimamanda. Inclusive isso foi algo que me deixou bastante curiosa, Lesley não nasceu em África, ela nasceu e cresceu no Reino Unido, tem descendência africana e moro...

Eu conheço Uzomi

  Primeiro livro que leio da escritora Kinaya, e comecei muito bem, seu livro afrofuturista foi uma leitura deliciosa e me encantou. Assim como Lu Ain-Zala, Kinaya torna-se um nome de peso dentre as escritoras negras afrofuturistas. A obra acontece em um tempo futuro, mas ficamos com aquela sensação de que a qualquer momento podemos realmente estar nesse tempo de tanta escassez e incertezas. Além dessa sensação, a escrita de Kinaya também nos proporciona um suspense, incita uma curiosidade enorme pelo que pode acontecer na história, inclusive o final só nos deixa doidos para ler o próximo volume. Apesar de se passar no futuro, a questão do sucateamento da educação pública e não valorização do professor é um problema antigo e estrutural, a nossa protagonista Hadassa é professora, assim como a escritora, seria coincidência isso!? Bom, acompanhamos as mudanças que ocorre na sua vida e vamos descobrindo junto com ela as armadilhas do novo emprego. Kinaya nos apresenta uma protago...

A Namorada do Dom

A leitura do livro A Namorada do Dom foi uma grande surpresa, na verdade conhecer a escritora foi uma grande surpresa, eu amo ler escritores que não conhecia, que não são tão famosos, traz uma sensação de descoberta e eu adoro. A outra surpresa foi a capa do livro, quando vi pela primeira vez pensei que seria algum livro sobre espiritualidade, ou o tema do livro seria somente sobre solidão da mulher negra, mas então comecei a ler o livro e percebi que o tema era bem mais vasto do que esses dois assuntos. No livro Dulci conta dos desamores que aconteceram na sua vida, mostra as relações afetivas sejam aqui no Brasil ou na Suíça, aprendemos demais com cada relacionamento, porém a relação afetiva que mais me chamou a atenção, mais me encantou, foi a relação de Dulci com a sua irmã, e inclusive pude ver essa relação antes de ler o livro, quem enviou o livro pra mim foi a sua irmã que mora aqui no Brasil. A leitura é muito tranquila, flui durante todo o tempo, mesmo naqueles momentos ...

Akin o rei de Igbo

Mais uma leitura de uma obra do escritor Marcos Cajé, assim como as outras obras, Cajé nos presenteia com uma linda viajem para a África e uma surpreendente aventura. Com uma linguagem muito acessível e própria para o público infanto juvenil o escritor conta a história de Akin. A magia permeia essa obra assim como em Zula a guerreira e Igbo e as princesas, essa magia que não aparece do nada, mas que nos mostra a nossa conexão com os nossos ancestrais e com a sua sabedoria, e para quem tem contato com crianças e adolescentes, sabe muito bem que esse é um excelente tempero para aguçar a curiosidade deles. Assim Cajé proporciona que os nossos pequenos conheçam um pouco mais da nossa história de uma forma lúdica e muito bonita, isso também ocorre por sempre territorializar onde as histórias acontecem, e eu já pontuei sobre isso nas resenhas dos outros livros. Akin é um menino criado por duas mulheres, algo que muito vemos atualmente, crianças negras sendo criadas somente pelas mulher...

Kali e a cabaça

O livro Kali chegou pra mim em um momento muito especial, no ano em que desejo muito ler e resenhar histórias de escritores africanos. O autor dessa obra prima é Naka, nascido em Guine Bissau em 1955 e que atualmente mora aqui em Salvador, na minha querida terra Salvador. As ilustrações em livros infantis sempre me chamam muito a atenção, em especial nos livros de escritores negros, pois ver crianças e famílias negras sendo ilustradas nos livros infantis é de reconfortar o coração, saber que as crianças hoje em dia podem desfrutar da representatividade na própria infância é lindo demais, algo que infelizmente não tive acesso na minha infância. No livro Kali as ilustrações foram feitas pelo autor, isso porque Naka é também artista plástico, a sensação durante todo o livro é de que estou em uma exposição com todas as telas pintadas pelo próprio escritor, me senti em uma enorme galeria, pude vivenciar a experiência visual do livro de uma forma belíssima. Além dessa experiência incrí...

Eu destilo melanina e mel

Upile Chisala foi uma bonita descoberta de 2020, já tinha visto a capa do livro, sabia que era de poesias, mas quando o livro chegou aqui em casa e comecei a ler foi uma linda, lindíssima descoberta a escrita de Chisala. Durante toda a leitura me lembrei de várias outras poetas que tem seus poemas nesse mesmo estilo, as principais foram Ryane Leão e Rupi Kaur. Ryane é brasileira, Rupy é indiana, e Chisala é de Malawi (um país Africano), isso significa que nós mulheres temos conexões que superam as fronteiras terrestres, existe a dor do machismo, do patriarcado que está presente em qualquer país, mas também existe a força, esperança, luta e amor que une essas mulheres, cada uma em seu país compartilhando a suas palavras poéticas para nós leitoras. Chisala faz algumas divisões em seus livros, reuni poemas que apresentam o mesmo elo temático em partes, ela começa com poesias que falam sobre a cor da pele, não poderia ter começado melhor, são poemas de acalanto e de abraço, sentimos qu...

Fique comigo

Posso resumir a história com uma única palavra - surpreendente, nada é previsível na trama escrita pro Ayòbámi, quando achamos que sabemos o que vai acontecer ela vai lá e nos prega uma peça, apresenta uma outra narrativa, uma escrita completamente envolvente que te faz ficar pressa desejando saber o que vai acontecer. É simplesmente surpreendente do início ao fim. Ayòbàmi começa invertendo o tempo, nos conta um pouco do presente e logo volta ao passado repassando toda a história de Akin e Yejide. Estes eram casados e não conseguiam ter filhos, isso atormentava por demais o casal e principalmente a mãe de Akin. A pessoa que era culpabilidade pelo fracasso de ter um filho era Yejide, e como solução era preciso que Akin tivesse outra esposa, algo natural na sua cultura. Porém isso aumenta os problemas na relação do casal, dentre um deles é que a segunda esposa consegue descobrir o real motivo de Yejide não engravidar. O ciúmes, a disputa pela atenção de Akin, a pressão para que a seg...